PUC – SP Discurso – 1991

Necessário é confessarmos que pensamos em uma dezena de maneiras de dar início a esta nossa fala.

Entretanto, em cada uma destas vezes, no profundo de nossas memórias, uma voz parecia nos dizer que não estávamos sendo originais. Que outrem em algum momento, já se expressara semelhantemente.

Com efeito, a explicação, acreditem, está nos destinatários: eles, os que ouviram, as mencionadas mensagens outrora, e vocês, têm em comum o fato de serem seres humanos especiais: pessoas para quem sentimos uma irrefreável necessidade de dizer algo, e ao mesmo tempo, para quem não conseguimos formular outra mensagem que não seja de agradecimento, e, para isto estamos aqui.,

Sim, para agradecer… daremos a mão à palmatória, se nos censurarem afirmando que nossa fala tem  uma roupagem  de lugar comum, porém para isto estamos aqui…

Há, na natureza, algumas espécies de animais que tão logo nascem, são abandonadas à própria sorte, e sobrevivem, e subsistem.

Tal não ocorre com o homem: para trilhar esta misteriosa trajetória que o vocabulário do cotidiano intitula vida, ele precisa ser amparado, urge que o conduzam, que o protejam. Sem tais requisitos, ele está irremediavelmente fadado a encontrar-se com a morte prematuramente.

Ora, vejam só,  nós estamos aqui, vivos! e este dado tão relevante pode nos levar a afirmar , sem medo de errar, que vocês foram eficientes no seu trabalho de nos amparar, conduzir, proteger… e por este inestimável bem denominado vida, nós prestamos, a vocês, sincera gratidão.

Vivos, saudáveis, e …. pasmem… com tinta que borracha nenhuma pode apagar, estamos, neste  momento, desenhando o ponto final em uma longa história intitulada “CURSO SUPERIOR DE DIREITO”.

Uma história dividida em inumeráveis capítulos e parágrafos: alguns apresentando indagações que o tempo, e só o tempo responderá, outros, apresentando inocultáveis rasuras, frutos de erros cometidos e timidamente corrigidos, e ainda outros com feições de conclusão porque pensávamos que ali sucumbiríamos, e todos eles, sem exceção, marcados pelo dramatismo e turbulentas emoções.;

Sim, uma história com a característica sobremodo especial de ter sido arquitetada, confeccionado, elaborada a duas, quatro, dez inúmeras mãos: estas… e especialmente as mãos de vocês: pais, familiares, mestres, professores e amigos: Verdade, não importa a dimensão do contato travado, não importa o grau de sua participação, esta história não teria introdução, não se desenvolveria e carecia de conclusão se não fosse a constante, marcante, e onipresente participação de vocês, repreendendo-nos quando nos equivocávamo, incentivando-nos quando desanimávamos, e, por que não, pegando em nossas mãos e escrevendo conosco quando nos faltavam coragem e vigor para darmos continuidade.

Obrigado! nesta festiva noite, que não é senão uma vitoriosa noite de autógrafos, vocês não poderiam faltar, e estão convidados, todos vocês, a  assinar conosco, como genuínos, e legítimos co-autores.

Seríamos levianos, e vocês perspicazes ouvintes, de imediato perceberiam ser MENTIRA, se afirmássemos que este contato com a PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA, foi um mar-de-rosas: o espelho nos mostra, com toda a sinceridade que lhe é possível, o quanto envelhecemos precocemente, nossas contas bancárias, próximas do saldo zero como os dentes da gengiva, refletem o encarecimento das mensalidades, e quanto isto custou a quase todos nós, abdicamos de preciosas horas de sono, choramos, tropeçamos, frustramo-nos…

Porém , o que é a vida senão uma constante até aqui de dinamicidades? que é a existência do ser humano, senão um conjunto repleto de altos e baixos???

– O dia, de céu límpido e sol brilhante, dá lugar à noites escuras, e às vezes, sem estrelas;

– A rosa, tão cultuada e tão festejada por nossos poetas, traz consigo espinhos doloridos e traiçoeiros;

– O verão, propício a inesquecíveis noitadas, que convida ao mar e a praia, também cede passagem ao outono, ante-sala do inverno gélido e rigoroso;

– O feliz encontro, que é senão princípio de uma separação melancólica?

– O luto pode existir sem anteceder a um festivo nascimento? Não… nós e vocês sabemos que não, e que a nossa passagem pelos bancos escolares não poderia ser diferente, e não foi…

Também confessamos que não estamos levando em nossos alforjes todo o conhecimento técnico e teórico que desejaríamos, ao contrário…

Todavia, vocês nos legarem e nós levaremos conosco este material que o ladrão não rouba, a traça não corrói, e o tempo pode até amarelar, mas jamais apagar seu conteúdo inestimável, precioso e rico: este material denominado EXPERIÊNCIA DE VIDA: vocês nos fizeram bacharéis em direito, advogados, e acima, muito acima de tudo isto, CIDADÃOS, e como nos É CARO ESTE SENTIMENTO DE CIDADANIA! Nós nos comprometemos, neste momento, a fazer uso dele: este exemplo que vossos avós lhes legaram, e que vocês tão encarecidamente nos transmitiram, será a nossa mais básica diretriz, na luta que travaremos para deixar, como herança às gerações futuras, uma sociedade que conjugue os verbos confiscar, “bloquear”, retaliar, perseguir, intervir, apenas no Pretérito-Mais-Do-Que-Sepultado, onde justiça social deixe de ser utopia, ou norma programática, para se tornar o pão nosso-de-cada-dia, onde governantes e governados se tornem amantes e praticantes do Estado de Direito, sim, um mundo fraterno… habitável… respirável … humano…

E FINALMENTE:

Que esta força superior que nossos olhos não vêem, nossas mãos não apalpam, mas, que temos viva convicção, vive, e tudo sabe, e tudo pode, grave, no profundo de nossos corações, a mensagem que o imortal Paulo de Tarso nos deixou, há quase dois mil anos:

“ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, ainda que eu tivesse toda a sabedoria do mundo, ainda que distribuísse toda a minha fortuna para SUSTENTO DOS POBRES,  ainda que ENTREGASSE MEU CORPO PARA SER QUEIMADO, e não tivesse o amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine, nada seria, nada disso me aproveitaria…”

Senhores, aceitem o nosso muito obrigado !!!