Nota de falecimento e um convite à reflexão

Todos conhecemos o dito popular “aprenda com os erros dos outros: você não viverá tempo   suficiente para cometê-los sozinho”. Inspiro-me neste sábio provérbio para noticiar mais um equívoco irreparável de minha parte e a perda de um fraterno amigo:

O prédio em que trabalho, apesar de estritamente comercial, oferece a vantagem de permitir que o frequentemos vinte e quatro horas por dia: graças a isto é comum encontrarmos outros colegas advogados no sábado à tarde, nas manhãs de domingo e nos mais variados horários durante os dias da semana.

Dentre os frequentadores assíduos destes horários inusitados eu tinha um companheiro frequente que era o Dr. Arthur Freire Filho: cruzavamo-nos no elevador às 21h da Sexta Feira, e não raro, também no final da tarde do sábado e até em domingos ensolarados: encontrá-lo tornava o meu dia melhor porque sempre me deparava com um sujeito que, além de amado por seus subordinados, era a elegância e urbanidade em pessoa.

Surpreendentemente, fiquei algum tempo sem reencontrá-lo e conclui que alguém, eu ou ele, provavelmente estávamos tomando jeito e aprendendo a frequentar o prédio em horários e dias da semana um pouco mais razoáveis.

O fato é que, recentemente o encontrei no elevador: ele estava extremamente abatido, pálido, com poucos cabelos, mas isto não o impediu de sorrir-me e tentar dialogar comigo, MAS NÃO CONSEGUIU: eu entrara no elevador falando ao celular e assim continuei: o máximo que fiz foi acenar e retribuir ao sorriso de meu fraterno amigo.

Estarrecido descobri logo depois que aquela fora minha última oportunidade para abraçar meu amigo: era despedida do Dr. Arthur de um prédio em que trabalhara por quarenta anos e um adeus aos colegas com os quais cruzara nos bons e não tão bons horários: um câncer terminal o consumia implacavelmente.

Tão logo descobri isto tentei, em vão, visitá-lo no hospital: desejava pedir perdão pela indelicadeza, dizer para ele que fora um grave erro continuar falando ao celular ao invés de retribuir ao seu sorriso, abraçá-lo como forma de retribuir às suas aulas de elegância e dedicação ao trabalho: ele não aceitou receber a visita dos amigos para poupá-los do sofrimento de vê-lo definhando.

Agora descubro que o Dr. Arthur Freire Filho faleceu e nada mais posso fazer a não ser compartilhar com meus amigos estas lágrimas misturadas com melancolia, e a sensação de que um pouco de minha existência desceu com ele ao túmulo: as novas tecnologias são úteis, sedutoras, inevitáveis, mas substituir isto pelo calor humano e pela fraternidade pode deixar marcas profundas e irreparáveis.

Ismael Cristo – Advogado em São Paulo

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